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## ... Carnaval de uma colombina ... ## Truque barato. ## Ando pela rua corando, achando que todo mundo sabe o que a gente fez e imaginando que eles também fazem. E fico olhando pras minhas manchas roxas e pensando. E tenho estado com uma vontade louca de usar saias e vestidos. E não é [só] pelo calor. Exacerbar a feminilidade, sabe? Agora sim eu sinto que estou realmente construindo o meu próprio caminho. ## As manchas roxas A grande questão da humanidade passa longe da razão de estarmos neste mundo, da existência de vida após a morte ou da descoberta de alienígenas povoando outros cantos do universo. Tampouco tem a ver com a pesquisa de uma teoria unificada da física, fenômenos paranormais, tsunami asiático ou gripe dos carrapatos. Não tem relação aparente com o brilho da aurora boreal, com o gol de mão do Maradona, com o sorriso da Madonna (do Da Vinci), com os últimos quartetos que Beethoven escreveu surdo ou, ainda, com o fato de a bateria da Mangueira não usar surdo de segunda.
O que me faz perder mesmo o sono são as manchas roxas que aparecem na perna da menina sem nenhuma explicação.
Por que as manchas roxas? Como chagas, surgem misteriosas pelo seu corpo, marcando meu território, maculando sua tez dulçorosa, de Dulcinéia arrebatada. E não só pelo corpo da minha, ela, mulher própria: as manchas estão em todas as mulheres do planeta. Senhoras apaixonadas, vestindo anáguas; adolescentes de estranhos humores, irritadas; crianças impúberes, de galochas e histórias (da carochinha); leitoras boazudas, cabrochas bronzeadas, de euforia que não cabe dentro dos peitos – a todas acometem as mesmas nódoas. Roxas e nas coxas, principalmente, mas também nos: braços, bunda, panturrilha e outras partes. E volto a perguntar, sem mais enrolação: por que as manchas roxas? De onde vêm?
Quando a menina chega em casa do trabalho, emancipadíssima, ou acorda aos muxoxos, fazendo malcriação, ou volta de viagem cheia de sacolas, ou sai do mar molhada de sal, nunca sabe o porquê das manchas. E, se souber, não diz. Perguntar é perda de tempo. E ficamos assim, os homens, asnos empolados, mais uma vez perdidos na escuridão da nossa ignorância infinita sobre tudo que nos é estranho, ainda que familiar, e sobre o que nos é mais alheio, ainda que tão arraigado dentro de nós: a mulher, esse singular objeto.
Seriam as manchas roxas marcas de amantes descuidados e secretos? Escapadelas pelas tardes vazias, amassos nas esquinas, escadas dos prédios e por trás de cada árvore no caminho de casa? Seriam as manchas lembranças de outros toques? Agouros dos próximos? Seriam elas memórias do seu corpo? Fantasmas te bolinando durante a noite? Eu te encoxando durante o dia?
Ou seriam trombadas e joelhaços involuntários em: cadeiras, mesas, sofás, armários, escrivaninhas, bancos, automóveis, árvores, cachorros, portas, geladeiras, grades, janelas, pedras, crianças, pias, caixas, postes e tudo o mais que puder estar a sua frente? Seriam as manchas provas roxas e materiais da sua peleja diária com o mundo e tudo que o compõe? Evidências da fragilidade do manto delicado que cobre seu corpo, em contraste com sua enorme força para o resto (incluindo gripes, cicatrizes, partos e filas de supermercado)?
Para nenhuma dessas perguntas tenho a resposta. Mas sei que vou morrer tentando descobrir. João Paulo Cuenca é autor de Corpo Presente e colunista da Revista TPM. Escrito por ** mari ** às 17h12 [] [envie esta mensagem] Carne, osso, pele... agridoce. Amanhã talvez vai ser um carnaval, vão falar de mim pro bem ou pro mal. Acho que eu fico mesmo diferente quando falo tudo o que penso realmente. É tolice, eu sei... mas eu imagino. "olha, não sou daqui Escrito por ** mari ** às 17h52 [] [envie esta mensagem] |
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